Vinicius Beretta Minotti
Colunista
Bom eu como um grande fã de Luiz Fernando Veríssimo estou aqui para contar alguns dos melhores contos (pleonasmo), claro na minha opinião de mero leitor aprendiz... Ai vai o primeiro...
Homens
Deus, que não tinha problemas de verba, nem uma oposição para ficar
dizendo "Projetos faraônicos! Projetos faraônicos!", resolveu, numa
semana em que não tinha mais nada para fazer, criar o mundo. E criou o
céu e a terra e as estrelas, e viu que eram razoáveis. Mas achou que
faltava vida na sua criação e - sem uma idéia muito firme do que queria -
começou a experimentar com formas vivas. Fez amebas, insetos, répteis.
As baratas, as formigas etc. Mas, apesar de algumas coisas bem
resolvidas - a borboleta, por exemplo -, nada realmente o agradou.
Decidiu que estava se reprimindo e partiu para grandes projetos: o
mamute, o dinossauro e, numa fase especialmente megalomaniaíca, a
baleia. Mas ainda não era bem aquilo. Não chegou a renegar nada do que
fez - a não ser o rinoceronte, que até hoje Ele diz que não foi Ele -,
e tem explicações até para a girafa, citando Le Corbusier ("A forma
segue a função"). Mas queria outra coisa. E então bolou um bípede. Uma
variação do macaco, sem tanto cabelo. Era quase o que Ele queria. Mas
ainda não era bem aquilo. E, entusiasmado, Deus trancou-se na sua
oficina e pôs-se a trabalhar. E moldou sua criatura, e abrandou suas
feições, e arredondou suas formas, e tirou um pouquinho daqui e
acrescentou um pouquinho ali. E criou a Mulher, e viu que era boa. E
determinou que ela reinaria sobre a sua criação, pois era sua obra mais
bem-acabada.
Infelizmente, o Diabo andou mexendo na lata de lixo de Deus e, com o que
sobrou da Mulher, criou o Homem. E é por isso que, alguns milhões de
anos depois, a Lalinha e o Teixeira estão sentados num bar, o Teixeira
com as mãos da Lalinha entre as suas, olhando fundo nos seus olhos,
tremendo romance, e de repente a Lalinha puxa as mãos violentamente.
- Seu grandessíssimo...
- O que é isso, Lalinha?
- Agora eu saquei. Saquei tudo. Foi ele que instruiu você!
- Você está delirando.
- Mas claro. Como eu fui boba. Como é que você ia saber que o meu
perfume preferido era aquele? Foi o João que te disse.
- Lalinha, eu juro...
- Mas eu sou uma imbecil! E o disco. O primeiro disco que você me dá é
justamente um disco do Ivan Lins... Meu Deus, até o beijo atrás da
orelha!
O Teixeira olha em volta, preocupado. Lalinha está exaltada.
- Lalinha, calma.
- Posso até ver o João ensinando você. Olha, beija ela ali que é
tiro e queda. Ele escolheu você a dedo. Sabia que você é do tipo que
gosto. Igual a ele, o cachorro!
- Lalinha, eu juro pela minha mãe...
- Estava tudo bom demais para ser verdade. Agora tudo encaixa.
- Não é nada disso que você está pensando.
- Claro que é! Mas diz pro seu amigo João que não vai dar certo. Diz
que quase deu, mas eu acordei a tempo. Diz que ele vai continuar me
pagando pensão por muitos e muitos anos porque tão cedo eu não caso de
novo. Ainda mais com um capacho como você!
- Lalinha, então você acha que eu ia me submeter a... Ô Lalinha!
- Acho sim, acho sim.
- Está certo. Foi isso mesmo. Mas eu me apaixonei de verdade, Lalinha.
Nosso casamento ia ser um estouro. Vai ser um estouro.
- Pede a conta.
- Mas Lalinha...
- Pede a conta, Teixeira.
***
PS: o carinha agora se chama João, pq... bem pq... bom o nome original iria dar problema....
hehehehehe
abraços e até sábado que vem!
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